
O próximo ciclo de crescimento do agronegócio brasileiro deve ser marcado por duas transformações que acontecem ao mesmo tempo: mudanças na relação comercial com a China e o avanço da eletrificação, da hibridização e de novas tecnologias aplicadas às máquinas agrícolas.
A China continuará tendo peso decisivo para o agro brasileiro. Em 2025, o país comprou US$ 55,3 bilhões em produtos agropecuários do Brasil, correspondentes a 32,7% das exportações do setor, segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária. Ao mesmo tempo, o país asiático amplia políticas de segurança alimentar, investe em produção doméstica e busca reduzir sua dependência de algumas importações.
Do outro lado dessa relação, a indústria chinesa também aparece com força crescente dentro das propriedades brasileiras. Tratores asiáticos ampliam participação nas importações enquanto tecnologias híbridas, sistemas de propulsão elétrica, automação, inteligência artificial e conectividade começam a disputar espaço nas decisões de investimento.
O resultado é um cenário em que produtividade, energia, combustível e dados passam a estar ainda mais conectados.
Por que a China continua sendo estratégica para o agronegócio brasileiro?
A resposta curta é: porque aproximadamente um terço das exportações brasileiras do agronegócio ainda tem a China como destino.
Essa concentração exige atenção às transformações que acontecem dentro do próprio mercado chinês.
Segundo o estudo da Cogo Inteligência em Agronegócio apresentado no 18º Simpósio SAE Brasil de Máquinas Agrícolas, a China vem colocando a segurança alimentar entre suas prioridades estratégicas. O país utiliza crédito direcionado, subsídios, pesquisa, desenvolvimento tecnológico e políticas industriais para ampliar sua produção doméstica e reduzir vulnerabilidades externas.
Há também uma mudança demográfica importante. O envelhecimento da população, a queda da natalidade e um crescimento mais moderado do consumo de carnes tendem a desacelerar a expansão de determinadas importações agrícolas.
No caso da soja, por exemplo, o estudo projeta que as importações chinesas podem subir de aproximadamente 115 milhões de toneladas em 2026 para 136 milhões em 2035. O mercado continua crescendo, porém em ritmo mais moderado do que aquele observado nas primeiras décadas deste século.
Para o produtor brasileiro, isso significa que a competitividade passa a depender ainda mais de produtividade, custo e capacidade de atender diferentes mercados.
A China também está mudando o mercado brasileiro de máquinas agrícolas
A influência chinesa sobre o agro brasileiro começa a acontecer também pelo lado dos equipamentos.
Entre janeiro e julho de 2026, Índia e China responderam juntas por 94,47% dos tratores importados pelo Brasil em quantidade, segundo os dados apresentados pela Cogo Inteligência em Agronegócio. Foram 5.184 unidades provenientes da Índia e 4.968 da China.
O movimento chama atenção pelo preço. O estudo aponta que algumas máquinas asiáticas podem chegar ao mercado brasileiro com valores entre 30% e 40% inferiores aos de equipamentos equivalentes produzidos no país.
Mas essa disputa deverá avançar além do preço.
Eletrificação, sistemas híbridos, inteligência embarcada, autonomia, robótica, conectividade e plataformas digitais começam a fazer parte da estratégia dessas fabricantes.
A chinesa Zoomlion, por exemplo, apresentou ao mercado brasileiro um trator híbrido e destacou sua estratégia de expansão de equipamentos agrícolas movidos por novas fontes de energia. A fabricante também desenvolve tecnologias de acionamento elétrico aplicadas a tratores e colheitadeiras.
O que a eletrificação das máquinas agrícolas significa na prática?
Eletrificação no agro não significa uma substituição imediata de todos os motores a combustão. A tendência é de convivência entre diferentes fontes de energia.
Máquinas totalmente elétricas podem ganhar espaço primeiro em atividades nas quais autonomia, infraestrutura de recarga e potência necessária tornam a tecnologia economicamente viável. Em atividades pesadas e jornadas prolongadas, soluções híbridas e combustíveis de maior densidade energética tendem a continuar relevantes durante a transição.
Essa realidade já aparece no mercado automotivo chinês. Em 2025, quase 55% dos automóveis novos vendidos na China eram elétricos. O país também registrou mais de 200 mil vendas de caminhões pesados elétricos no ano, aproximadamente três vezes o volume de 2024.
O avanço demonstra a velocidade de desenvolvimento da cadeia elétrica chinesa e ajuda a explicar por que essa tecnologia começa a aparecer também em equipamentos destinados ao campo.
Para o agronegócio brasileiro, entretanto, a transição energética deverá ser lenta e ter algumas barreiras, em relação às características da produção, seguindo um formato diferente. Por isso, diesel, biodiesel, biometano, etanol, eletricidade e sistemas híbridos poderão coexistir dentro do mesmo ambiente produtivo.
A eletrificação ameaça os biocombustíveis?
A tendência apontada pelo estudo é de redistribuição da demanda energética.
O avanço dos veículos elétricos deve pressionar gradualmente o consumo de etanol hidratado principalmente nos centros urbanos depois de 2030. Ao mesmo tempo, segmentos como transporte pesado, aviação, transporte marítimo e determinadas aplicações industriais continuam demandando fontes energéticas de alta densidade e alternativas de menor emissão de carbono. Isso cria novas oportunidades para o agronegócio brasileiro.
Biodiesel, etanol de milho, biometano, combustível sustentável de aviação (SAF), bioeletricidade e outros produtos renováveis passam a ampliar a relação entre produção agrícola e produção energética.
A soja, por exemplo, poderá ter parte relevante de seu crescimento sustentado pelo biodiesel. Já o milho ganha um novo vetor de demanda com a expansão das usinas de etanol, especialmente no Centro-Oeste.
O combustível, portanto, deixa de ser analisado apenas como um custo dentro da fazenda. Ele também passa a fazer parte de uma transformação mais ampla da própria matriz energética do agronegócio.
O que muda para a gestão das propriedades rurais?
Quanto maior a diversidade tecnológica da frota, maior a necessidade de conhecer o desempenho real de cada máquina.
Em uma propriedade que combine equipamentos convencionais, híbridos e novas tecnologias, simplesmente acompanhar o gasto total mensal oferece pouca informação para decidir qual ativo está produzindo melhor resultado.
O gestor precisa entender quanto cada máquina consome, onde é abastecida, quem realizou o abastecimento, quantas horas trabalhou, qual foi seu consumo por hora ou por atividade e onde aparecem desvios de comportamento.
Essa análise se torna especialmente importante durante os períodos de transição tecnológica.
Uma máquina mais nova ou com tecnologia híbrida pode apresentar preço de aquisição maior e consumo diferente. Para avaliar seu retorno, será necessário comparar dados reais de utilização, disponibilidade, produtividade, manutenção e energia consumida.
É a informação operacional que permite descobrir se uma tecnologia está efetivamente reduzindo custo por hectare, por tonelada produzida ou por hora trabalhada.
Eletrificação aumenta ou reduz a importância do controle de combustível?
Durante a transição, a gestão tende a ficar ainda mais importante.
O diesel continuará presente durante muitos anos em tratores, colheitadeiras, caminhões, geradores, máquinas pesadas e outras aplicações. Paralelamente, biodiesel, biometano, eletricidade e sistemas híbridos devem ganhar participação em outros equipamentos. Isso cria uma frota cada vez mais heterogênea.
Nesse contexto, cada litro consumido precisa gerar informação capaz de ser relacionada ao veículo ou equipamento, operador, horário, hodômetro ou horímetro e histórico de consumo.
Sistemas de automação e gestão de abastecimento, como o ÈPTÁ SGA, permitem organizar essas informações e dar ao gestor maior rastreabilidade sobre o combustível utilizado na empresa.
A tecnologia utilizada para movimentar as máquinas pode mudar. A necessidade de medir consumo, custo e desempenho permanece central para a gestão.
China, eletrificação e dados: onde está a oportunidade para o agro brasileiro?
A transformação que vem da China tem dois efeitos simultâneos.
Como mercado consumidor, o país deve continuar estratégico, mas seu crescimento mais moderado e sua busca por maior autossuficiência exigem que o Brasil amplie produtividade, competitividade e diversificação de mercados.
Como potência industrial, a China aumenta a concorrência dentro do próprio mercado brasileiro, trazendo máquinas com preços competitivos e acelerando a chegada de soluções híbridas, elétricas, conectadas e automatizadas.
Para produtores e empresas do agronegócio, a resposta passa pela capacidade de medir resultado. Preço de aquisição continuará importante. Consumo, disponibilidade, manutenção, produtividade e custo total de utilização tendem a pesar cada vez mais na escolha de uma máquina. Nesse cenário, tecnologia de gestão passa a acompanhar tecnologia embarcada.
Quanto mais sofisticada fica a frota, maior é o valor de transformar consumo e abastecimento em dados úteis para decisão.
Perguntas frequentes
A China continuará comprando produtos do agronegócio brasileiro?
Sim. A China continua sendo o principal destino das exportações brasileiras do setor e respondeu por cerca de um terço das vendas externas do agronegócio em 2025. As projeções apontam manutenção de uma demanda elevada, porém com crescimento mais moderado em alguns produtos, como a soja.
Tratores elétricos já são uma realidade no Brasil?
O mercado brasileiro começa a receber máquinas híbridas e tecnologias de eletrificação. Em 2026, fabricantes chinesas apresentaram tratores híbridos no país, enquanto o setor discute eletrificação, combustíveis alternativos e inteligência aplicada às máquinas agrícolas.
O diesel vai desaparecer das máquinas agrícolas?
As projeções apontam para uma transição com diferentes tecnologias convivendo. Máquinas pesadas e atividades que exigem elevada potência e autonomia continuam apresentando características favoráveis ao uso de combustíveis de alta densidade energética, enquanto soluções híbridas e elétricas avançam em aplicações específicas.
Como a inteligência artificial pode ajudar na gestão de combustível?
A IA pode trabalhar sobre históricos de abastecimento e consumo para ajudar o gestor a analisar grandes volumes de informação, identificar comportamentos relevantes e direcionar investigações. A qualidade dessa análise depende de dados estruturados e confiáveis.
Por que controlar o abastecimento durante a transição energética?
Porque comparar tecnologias exige conhecer o custo real de utilização de cada equipamento. Dados de abastecimento associados a máquina, operador, horário, quilometragem ou horímetro ajudam a analisar consumo, identificar desvios e acompanhar a eficiência da frota.
Como preparar a gestão para uma frota mais tecnológica?
O primeiro passo é garantir que os abastecimentos gerem informações rastreáveis e centralizadas. A partir dessa base, a empresa consegue ampliar análises, integrações e aplicação de inteligência sobre os dados.
